Esquizofrenia: uma doença que afeta o cérebro
Dr.
Maurício H. Serpa
Desde quando o termo esquizofrenia foi cunhado, especulava-se
que tal doença seria causada por alterações cerebrais. Os neuropatologistas da
época, no entanto, não conseguiram demonstrar alterações microscópicas no
tecido cerebral dos pacientes, como já haviam observado em doenças como
Alzheimer e Neurossífilis.
Felizmente, nas últimas décadas, com o desenvolvimento de
técnicas de neuroimagem (como a ressonância magnética e o PET Scan - Positron Emition Tomography), foi
possível estudar o cérebro de pacientes com esquizofrenia e compará-los com o
de pessoas saudáveis. A partir destes estudos, hoje contados em milhares,
descobriu-se que a doença provoca alterações tanto da atividade quanto da
estrutura de nosso cérebro.
Por exemplo, sabemos atualmente que a doença afeta o volume,
o funcionamento e os componentes bioquímicos de regiões cerebrais nobres
importantes para o pensamento, a percepção do ambiente, as emoções e a memória.
Além disso, sabemos que há uma relação direta entre esta alterações cerebrais e
os sintomas que observamos em quem sofre da doença, como os delírios e as
alucinações.
Hoje também temos conhecimento de que os pacientes com
esquizofrenia tendem a ter uma redução do tamanho do cérebro e de algumas de
suas regiões, como o hipocampo, além de um aumento do volume do espaço
intracraniano preenchido pelo líquor. Também temos conhecimento que a doença
provoca uma alteração na sinalização neuronal (“conversa” entre os neurônios),
em especial na sinalização que ocorre através do neurotransmissor dopamina.
Mais recentemente, através de estudos de ressonância
magnética, foi possível compreender que o cérebro dos pacientes está menos
conectado. Isto é, há uma deficiência na integração entre as várias regiões e
sistemas cerebrais. Curiosamente, o termo Esquizofrenia, cunhado há quase 110
anos por Eugen Bleuler, de fato significa “mente dividida” (do grego Schizo =
dividida, cindida e Phrenos = mente). O médico suíço criou este nome a partir
da observação clínica dos pacientes, que o levou a crer que a cisão entre as
diferentes funções psíquicas seria a característica principal desta condição.
Apesar de todo o conhecimento que o estudo do cérebro através
da imagenologia médica nos trouxe até o presente momento, o modelo biológioco
da causa da esquizofrenia ainda não foi decifrado por completo. Felizmente,
novas e promissoras técnicas de neuroimagem, como o uso de inteligência artificial
para reconhecer padrões de atividade e estrutura cerebrais, vão continuar
auxiliando os neurocientistas a desvendarem os mistérios desta intrigante e penosa
doença.



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